Hoje, estou com uma daquelas vontades súbitas de escrever.
Sinto-me naqueles dias em que parece que me sai literatura por todos os poros, falta-me apenas terminar o processo « busca » da minha inspiração para hoje.
Eis que a luz se acende, e o resultado é muito simples, tu.
Já tenho a minha música de fundo a tocar, agora vou divagar por aqui algures, ainda que não seja muito longe, hoje prefiro ficar por cá, pelo lado de dentro.
Não estou com uma vontade súbita de te conhecer, nem tão pouco de falar contigo ou saber alguma outra coisa sobre ti como tenho de escrever, mas sinto que hoje mais do que qualquer outro dia em que me questionei sobre quem tu poderias ser ou que raio de influência terias tu em mim, é o dia de entrelaçar o meu braço ao teu.
Durante este meu divagar pelo teu mundo, desculpa, tu vais ser o 2º plano, vais ser o figurante.
Cansei-me que me fechasses as janelas e apagasses as luzes. Cansei-me de ver o lado de fora pelo buraquinho da varanda. Cansei-me dos sons com que me assustavas de madrugada, no silêncio da noite.
Cansei-me de olhar para cima, e ver-te rasgar o meu papel de sonhos e objectivos futuros pedaço a pedaço, assim como me cansei de te ver apoderar da minha mente e tomares conta dos meus actos.
Deixei que fosses feliz por mim, e tu, egoísta, não me deste uma ponta dessa felicidade.
Hoje percebo todas as vertentes da origem « Pretérito Imperfeito », tudo isto graças a ti.
Foste tu, quem me ensinou a ser quem sou hoje e das coisas boas de que me orgulho, essa não é uma delas.
Foi por ti que vesti os sentimentos de luto. Tiveste a monstruosa capacidade de cobrir os meus dias de glória com o teu manto negro, e eu fui permitindo.
Sabes, sinto uma saudade enorme. Uma saudade terna e eterna. Uma saudade de ser eu, sem ti, e é por isso mesmo que arregaço os punhos e te dispo o manto, pois há uma necessidade em ti muito maior que carregares esse peso. A necessidade de veres a luz que erradia o teu caminho.
Deixa o medo do outro lado do manto. O medo e a vergonha. Eu estou aqui deste lado, contigo, como sempre estive quando inverti os nossos papéis, como quando te deixei ser eu, sem mais nada.
Estou aqui, mas de uma forma muito diferente. Hoje decidi sofrer tudo de uma vez e aceitar-te como és ou como foste.
Estou aqui para te deixar ficar no lugar a que pertences.
Por tudo, ou até por nada, hoje consigo olhar para ti de outra forma e talvez seja essa a razão pela qual hoje é mais fácil alcançar o que está para além do perdão, e a isso eu chamo paz, tranquilidade, amor.
Hoje deixo-te onde deverias ter ficado, ao teu lado ficam as correntes com que me acorrentaste todos estes anos, um dia vais lembrar-te do quão injusto foste.
Eu prossigo, com a mala feita como deveria tê-lo feito, sem fantasmas.
Amanhã sim, serei uma pessoa muito melhor e o mais importante, livre.
