continuo aqui, parada. sou o inverso das núvens que se movem por cima da minha cabeça, e tudo o que sei fazer é sonhar através delas.
admiro a suavidade com que se movimentam, creio que seja por me fazerem recordar a dança prometida que nunca se cumpriu. sempre a imaginei assim, bem ritmada, com este mesmo compasso. nem mais depressa, nem mais devagar. assim, tal e qual como a dança das núvens.
elas lembram-me de ti, porque ao contrário do que se fala por aí, que o limite é o céu, eu sempre soube que o meu limite eras tu.
ausentei-me, ausentei-te, e o pior é que sempre pensei que isto seria o melhor. pensei também que me ia habituar rápido à ideia parva de que já não ias fazer parte dos meus dias, que ia suportar, porque gosto de me imaginar forte.
hoje tenho a certeza que isso não passaram de ilusórias suposições. até agora ainda não me consegui habituar a esta ausência de ti. os dias sabem-me a pouco, completamente.
daqui, do lado de cá da nossa história consigo ver-te todos os dias e gosto sempre do que vejo, mas principalmente gosto da forma como aprendes-te a voar, sem mim. sem pressas de chegar, como sempre foste quando estávamos juntos.
sinto-te livre. sinto-te calmo. sinto que carregas o tempo nas tuas elegantes asas brancas (que por sinal é a tua cor favorita), e que cada vez estás mais distante de mim. mas gosto. gosto da tua maneira de voar e gosto do que aprendes-te a ser, mais uma vez, sem mim.
ainda não sei voar.
e talvez tu sejas uma das razões para que eu não aprofunde esse meu sonho. baseio-me no pouco. procuro os atalhos que me levam ao céu de uma outra forma.
sempre optei por contornar o essencial. talvez seja essa a razão pela qual me perco, todos e todos os dias.
habituei-me a estar aqui, apenas a observar. gosto de ver o teu leve bater de asas, ao longe. sinto que sentes que o céu é todo teu.
sinto que tens a maravilhosa capacidade de o fazer teu. sinto que te orgulhas disso e eu orgulho-me de ti.
sempre senti que éramos feitos da mesma matéria. hoje sei o que somos. somos faces diferentes da mesma moeda. sempre próximos, sempre unidos, mas nunca, nunca do mesmo lado.
penso tantas vezes se deveria ter-te conhecido numa outra altura, num outro sítio, numa qualquer hora. talvez este não tenho sido o nosso tempo, ou se calhar é mais uma daquelas histórias cármicas de que a bruxa tanto fala. será que viemos a este mundo para nos conhecermos no lugar errado, à hora errada? será que não mais vamos pertencer um ao outro?
ainda não sei voar.
e também não sei se algum dia vou ficar bem, sem ti. se vou poder voltar a contar-te sobre os meus dias. se vou poder voltar a mostrar-te aquela música que tanto me lembra de ti. não sei também se algum dia vou poder voltar a deitar a minha cabeça no teu colo, e descansar o meu coração.
o que sei é que hoje fui inundada por aquele sentimento estúpido a que chamamos SAUDADE. resolvi escrever-te na ansia de me sentir mais leve, mas sinto-me ainda mais angustiada. mais pesada. mais para baixo. sinto-me com mais saudades de um abraço teu. morro de saudades tuas, e tu? tu nem sabes.